Como todos sabem, Portugal e o Brasil têm andado há anos a fazer negociações relativas à uniformização da ortografia da língua portuguesa na norma portuguesa e na norma brasileira. Segundo este acordo, a ortografia de certas palavras mudará, com o desaparecimento de consoantes mudas (que não são pronunciadas) em palavras como "acção" (que passará a escrever-se "ação"), "óptimo" (que se transformará em "ótimo") ou "humidade" (que deixará de ter o h), entre muitas outras.
Ora, este acordo está muito longe de ser consensual nos dois lados do Atlântico (sim, leram bem: nos dois lados do Atlântico!) e as manifestações contra este acordo roçam a histeria e a paranóia, porque os portugueses e os brasileiros têm medo de perder a sua "identidade cultural". Esta histeria e esta paranóia estão também a atingir muitos tradutores, especialmente os portugueses, porque têm medo de ficar desempregados, pois, daqui em diante, "a norma brasileira será adoptada" (esta é uma das muitas enormidades que tenho ouvido e lido...). Além disso, muitos meios de comunicação social portugueses e brasileiros (já nem falo dos estrangeiros!) veiculam ideias completamente falsas, como "o fim da norma de Portugal e a adopção incondicional da norma do Brasil".
Minhas senhoras e meus senhores, vamos lá a ter calma! Todas estas informações são totalmente falsas!!! Porquê? Porque a identidade de uma língua ou de uma variante linguística não se resume à ortografia. O vocabulário e a sintaxe (estrutura das frases) são tão ou mais importantes do que a ortografia.
Ora vejamos alguns exemplos:
- Em Portugal, quando falamos do relvado dos jardins, dizemos "relva", enquanto os brasileiros dizem "grama".
-Quando falamos de bolos, mais propriamente de tartes, os portugueses usam a palavra "tarte" e os brasileiros usam a palavra "torta"; relativamente à torta, os portugueses dizem "torta" e os brasileiros dão a este bolo o nome de "rocambole" (não me perguntem porquê, mas é assim mesmo).
- Uma drogaria, em Portugal, é designada por "loja de ferragens" no Brasil.
- Uma farmácia à maneira portuguesa é designada por "drogaria" no Brasil, se quisermos comprar medicamentos dos grandes laboratórios; no entanto, se quisermos comprar um medicamento preparado pelo próprio farmacêutico, no Brasil, então temos de ir a uma "farmácia".
- As natas que utilizamos, em Portugal, para fazer sobremesas chamam-se "creme de leite" no Brasil.
- A primeira refeição do dia chama-se "pequeno almoço" em Portugal e "café da manhã" no Brasil.
- A palavra "rapariga" significa, em Portugal, uma jovem, enquanto que, no Brasil, "rapariga" significa prostituta.
- Em Portugal, a palavra "paneleiro" tem um significado pejorativo relativamente aos homossexuais do sexo masculino, enquanto que, no Brasil, um "paneleiro" é um simples artesão que fabrica tachos e panelas.
Como podem ver, há imensas diferenças entre a norma de Portugal e a norma do Brasil, mesmo na linguagem utilizada na língua quotidiana. Se formos analisar a terminologia especializada relativamente a vários sectores de actividade, as diferenças são ainda maiores. Pela parte que me toca, tenho imensa dificuldade em compreender textos técnicos e especializados escritos na norma do Brasil (em sectores como a informática, o sistema educativo, a legislação e o direito), pois o vocabulário utilizado é completamente diferente (de igual modo, um brasileiro terá imensas dificuldades em compreender um texto técnico escrito na norma de Portugal). Tendo em conta todas estas diferenças, será que os portugueses e os brasileiros vão perder a sua "identidade linguística e cultural"? Claro que não!!! Os portugueses vão continuar a falar o português de Portugal e os brasileiros vão continuar a falar o português do Brasil!!
Por isso, meus caros leitores, está na hora de acabar com a histeria e a paranóia, que provocam a desinformação que não nos leva a lado nenhum.